“O mais importante continua a ser o factor humano”

Cirurgia robótica na prótese da anca
As dores na anca não são um “sinal da idade” nem uma sentença inevitável. Seja qual for a origem, há respostas terapêuticas adaptadas a cada situação. Quando a colocação de uma prótese se revela a mais indicada, a cirurgia robótica permite fazê-lo com um elevado grau de precisão, garantindo um ajuste rigoroso às características individuais do doente.
Mas, como explica Gonçalo Martinho, ortopedista no Hospital CUF Santarém, esta técnica avançada não substitui a experiência de um cirurgião especializado. O mais importante, destaca, é uma avaliação cuidada, uma boa decisão clínica e um tratamento pensado para cada pessoa.
Quais são as patologias mais frequentes que afectam a anca e que sinais ou sintomas devem justificar uma avaliação médica especializada?
Gonçalo Martinho (ortopedista no Hospital CUF Santarém (OM 46762)) - A artrose é a patologia mais frequente da anca e uma das principais causas de dor nesta articulação. Existem, no entanto, outras doenças que também vemos com alguma regularidade, como a necrose da cabeça do fémur, o conflito femoro-acetabular ou algumas sequelas de patologias da infância que podem levar a um desgaste mais precoce da anca.
O sintoma mais característico é a dor na virilha, muitas vezes acompanhada de dificuldade em caminhar, subir escadas, calçar os sapatos ou entrar e sair do automóvel. Habitualmente instala-se de forma progressiva e começa a limitar acções que antes eram realizadas sem pensar. É nessa altura que faz sentido procurar uma avaliação especializada.
Como evoluiu o tratamento destas alterações nos últimos anos?
A cirurgia da anca foi uma das áreas que evoluiu de forma mais significativa. Hoje dispomos de melhores meios de diagnóstico, implantes com excelente durabilidade, técnicas cirúrgicas menos invasivas e protocolos de recuperação que permitem aos doentes recuperar mais rapidamente. Mas, na minha opinião, a maior evolução não foi apenas tecnológica.
Foi percebermos que duas pessoas com a mesma doença podem precisar de tratamentos diferentes. Cada doente tem uma anatomia própria, um estilo de vida diferente e expectativas distintas, e isso deve reflectir-se na forma como planeamos o tratamento.
A tecnologia, incluindo a cirurgia assistida por robótica, que já está disponível no Hospital CUF Santarém, permite-nos atingir um rigor ainda maior, mas continua a ser apenas uma ferramenta. O que faz verdadeiramente a diferença é uma avaliação cuidada, uma boa decisão clínica e um tratamento pensado para a pessoa que temos à nossa frente.
Como funciona a cirurgia robótica e de que forma é utilizada na colocação de próteses da anca?
Antes de mais, importa esclarecer que o robô não opera sozinho nem substitui o cirurgião. Todas as decisões continuam a ser tomadas pela equipa cirúrgica. A robótica fornece-nos informação muito detalhada sobre a anatomia do doente e permite planear e executar a cirurgia com um elevado grau de rigor.
Na cirurgia da anca procuramos reconstruir a articulação da forma mais próxima possível da anatomia de cada pessoa e esta tecnologia ajuda-nos precisamente a atingir esse objectivo. Permite confirmar, durante a cirurgia, parâmetros importantes e aumentar a previsibilidade do resultado final.
Quais são os principais benefícios da cirurgia robótica para os doentes, especificamente no que diz respeito à prótese da anca?
O principal benefício é permitir uma cirurgia ainda mais adaptada a cada doente. A robótica ajuda-nos a planear melhor, a posicionar os implantes com maior rigor e a reproduzir da forma mais fiel possível a anatomia e a biomecânica da anca. Isso aumenta a previsibilidade da cirurgia e dá-nos maior confiança na execução do plano que definimos antes de entrar no bloco operatório.
Dito isto, é importante transmitir uma mensagem equilibrada: a robótica, por si só, não garante melhores resultados nem substitui a experiência do cirurgião. O seu verdadeiro valor está em colocar mais informação e maior precisão ao serviço da decisão clínica. É essa conjugação entre conhecimento, experiência e tecnologia que nos permite oferecer um tratamento cada vez mais ajustado a cada pessoa.
A subespecialização é uma realidade muito marcada na área da ortopedia. Qual a importância de procurar profissionais dedicados especificamente às patologias da anca?
A ortopedia tornou-se uma especialidade cada vez mais diferenciada e isso traduz-se em benefícios claros para os doentes. Dedicar-nos diariamente à cirurgia da anca permite-nos acumular experiência, acompanhar de perto a evolução científica e incorporar novas técnicas e tecnologias de forma criteriosa.
A Medicina está em constante evolução e quem exerce esta área tem a responsabilidade de continuar a aprender. No Hospital CUF Santarém essa é uma preocupação constante. O compromisso com a actualização permanente é também uma forma de respeitar a confiança que cada pessoa deposita em nós.
Há quem viva com dores na anca e adie a procura de ajuda por receio da cirurgia. Que mensagem gostaria de deixar a quem está nessa situação?
A principal mensagem é que ninguém deve viver com dor por receio daquilo que pode ouvir numa consulta. Procurar um ortopedista não significa que vai precisar de uma cirurgia. Significa identificar a causa da dor, esclarecer dúvidas e conhecer as diferentes opções de tratamento. Quando a cirurgia é a melhor solução, dispomos hoje de técnicas, implantes e tecnologia que nos permitem oferecer tratamentos cada vez mais seguros e recuperações mais rápidas.
O mais importante é que cada doente compreenda o seu problema, participe na decisão sobre o tratamento e sinta confiança no caminho que vai seguir. A relação de confiança entre médico e doente continua a ser uma parte fundamental do tratamento e nenhum avanço tecnológico a substituirá.
Avançar para a prótese da anca: uma decisão informada
Concluir que a colocação de uma prótese da anca é a melhor solução nunca depende apenas da radiografia. Perceber até que ponto a doença está a condicionar a vida do doente é determinante. O ortopedista Gonçalo Martinho dá pistas:
“Quando a dor não permite caminhar com conforto, praticar exercício, viajar ou realizar actividades simples do dia a dia e os tratamentos conservadores deixam de ser suficientes, a cirurgia passa a ser uma opção muito válida”.
Vale a pena lembrar que “a prótese da anca é uma das cirurgias com melhores resultados em toda a Medicina”, mas, como sublinha o especialista, “deve ser realizada no momento certo e pelas razões certas”. O papel do ortopedista, acrescenta, “é o de ajudar o doente a identificar esse momento e garantir que toma uma decisão informada e tranquila”.
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