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“Há toiros que vêm às praças que mais parecem borregos”

  • Foto do escritor: Jorge Talixa
    Jorge Talixa
  • há 21 horas
  • 3 min de leitura

Campino Francisco Honrado em entrevista


Francisco Honrado foi o campino homenageado na edição deste ano do Colete Encarnado. Nascido no Alentejo há 63 anos, leva já 51 de trabalho na campinagem e admite que nunca pensou fazer outra coisa, porque gosta é de ser campino. Francisco Honrado encara a homenagem que recebeu no Colete Encarnado como um “privilégio” e sublinha que é a primeira vez que é distinguido nas festas da região.


Em entrevista ao Voz Ribatejana, explica que “nasceu” campino porque essa foi também a profissão do seu pai. Aos 63 anos continua a trabalhar, no concelho de Coruche, como maioral de vacas, depois de décadas a cuidar de toiros bravos. Gosta muito do que faz, mas mostra-se preocupado, porque a grande maioria dos jovens não quer esta vida.



Voz Ribatejana – Como é que a sua vida seguiu o caminho da campinagem?


Francisco Honrado - Segui o caminho da campinagem através do meu pai, que sempre foi maioral de vacas. Eu ganhei aquela cegueira e, quando saí da escola primária, comecei logo nas vacas. Tinha 12 anos e, depois, passei para maioral dos toiros. Somos alentejanos. O meu pai estava numa casa agrícola de gado manso. E, depois, estivemos no António José Teixeira (concelho de Coruche). O meu pai com as vacas e eu com os toiros.


Saiu da escola e seguiu para campino porque não via outra alternativa ou porque já gostava muito do campo e da campinagem?


Porque gosto disto. E estas coisas tem que se gostar. Se vier para aqui porque é uma alternativa, nunca passa da cepa torta. Sempre fui criado no campo. E segui o caminho do meu pai. 


Ao longo destes anos sempre foi campino ou, por vezes, teve algumas dúvidas e procurou outras coisas?


Sempre fui campino. Fui ajudante dos 12 aos 17. Aos 17 passei a maioral e fui maioral das vacas até aos 26 anos. Com 26 anos passei a maioral dos toiros, o que tenho sido sempre.

       

Maioral das vacas aos 17 anos. Não é uma grande responsabilidade para um jovem de 17 anos?


Um bocadinho. Era uma casa agrícola de gado manso da zona de Alcobaça. Fui convidado. Havia referências e fui convidado. Nessa altura tinha 200 vacas a meu cargo e o meu pai estava com outra vacada ao lado. Dava ali uma mão e íamos gerindo as coisas.


Ficava durante a semana com as vacas ou ia dormir a casa?


Vivia no monte e andava com as vacas, mas ia almoçar a casa e ia a casa à noite. Mas era todos os dias da semana, incluindo sábados, domingos e feriados.


A carreira foi evoluindo e, com 26 anos, foi convidado para maioral dos toiros na Ganadaria António José Teixeira?


Foi evoluindo. Tive o convite para ir para o António José Teixeira para maioral dos toiros. E fui para os toiros. Estive lá à volta de 14 anos.


Nessa altura, há 30 anos, os campinos ainda eram “campinos” ou já eram mais tractoristas?


Não, não eram. Eu ainda hoje sou maioral de 200 vacas e faço tudo a cavalo. Às vezes opto pelo tractor quando está muita chuva e o gado tem que comer. Aí opto pelo tractor. Estou numa casa agrícola perto da Branca (Coruche), mas já na freguesia de Canha, no concelho do Montijo.      


Vê futuro na tauromaquia e nas corridas de toiros ou estão muito atacadas e as coisas estão tremidas?


Não. Vejo futuro. Está um bocadinho atacada, é verdade. Mesmo dentro dos toiros, há corridas que enganam o público. Há ganadarias e ganadarias. É como em tudo. Sou dos que vêem mais corridas de toiros, este ano já vi 10 ou 12 e há toiros que vêm para dentro das praças que as pessoas vêem e dizem que mais parecem borregos. Há ganaderos que não mandam determinado toiro para não ficarem mal vistos. Mas há outros que não se importam com isso.



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