Bombeiros socorrem 70 emergências por dia
- Jorge Talixa

- há 7 dias
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António Carvalho em entrevista
O concelho de Vila Franca de Xira dispõe, desde 1 de Outubro, de uma Central Municipal de Operações de Socorro (CMOS), que aglutina todo o trabalho de recepção e despacho de serviços de emergência dirigidos às seis associações de bombeiros locais. Uma estrutura coordenada pelo Serviço Municipal de Protecção Civil (SMPC), que funciona em permanência 24 sobre 24 horas e que envolve 15 operadores devidamente formados para estas funções.
Vila Franca de Xira é, assim, um dos primeiros municípios do País a avançar para uma estrutura deste tipo que, para além do mais, desenvolveu uma plataforma informática inovadora para o seu funcionamento. Os primeiros dois meses de trabalho da CMOS demonstraram que a aposta está a ter sucesso. As seis corporações de bombeiros do concelho de Vila Franca respondem a cerca de 70 situações de emergência por dia (2094 no mês de Outubro) e, com a CMOS, estão a conseguir responder a mais cerca de 300 ocorrências por mês.
Em entrevista ao Voz Ribatejana, António Carvalho, coordenador da Protecção Civil Municipal, explica os motivos da criação da CMOS, a forma como as seis corporações procuram cada vez mais trabalhar em conjunto e revela já dados muito positivos desta primeira fase de funcionamento da Central Municipal de Operações de Socorro.
Voz Ribatejana – Porquê avançar com uma Central Municipal de Operações de Socorro (CMOS) no concelho de Vila Franca de Xira e até que ponto essa iniciativa é limitativa da autonomia das seis associações de bombeiros do concelho?
António Carvalho – A CMOS avança no âmbito de um projecto mais global e mais abrangente que foi proposto exactamente pelas corporações de bombeiros. Quem propôs esta organização e a CMOS foram os corpos de bombeiros. Se achassem que seria uma limitação à sua autonomia não tinham proposto avançar com uma CMOS.
Em 2019, os corpos de bombeiros, quer as direcções, quer os comandos, entenderam que fruto das dificuldades, quer de meios humanos quer de meios materiais, havia aqui uma oportunidade de melhorar na sua prestação de socorro se centralizássemos a gestão dos meios. Sendo que os corpos de bombeiros não perdem nenhuma autonomia.
Tudo isso foi pacífico nos bombeiros ou houve algumas resistências, nomeadamente de quem trabalhava nas centrais de operações de cada uma das associações?
Da parte dos comandos e das direcções foi pacífico e a informação foi perfeitamente passada e trabalhada. Demorámos cinco anos a que o projecto ficasse maduro e a que todos se sentissem confortáveis. A Câmara disse sempre que só aceitava avançar com o projecto quando todas as associações, quando os seis comandantes e os seis presidentes de direcção, estivessem perfeitamente confortáveis com aquilo que estávamos a propor.
Houve esse trabalho, até porque pelo meio houve mudanças de comandantes e de direcções e houve sempre a necessidade de ir ajustando o trabalho. Com uma pandemia pelo meio. As pessoas que trabalham nas centrais são funcionárias das associações como outras quaisquer e, portanto, só têm que cumprir aquilo que a entidade patronal lhes diz. Os operadores das centrais não perderam nenhuma autonomia.
Houve alguns operadores que tenham transitado das centrais das associações para a CMOS?
Não. Isso foi o projecto inicial. Inicialmente as associações propuseram que cada corpo de bombeiros daria dois operadores para a central municipal e a Câmara dava mais dois, para termos 14 operadores. Isso foi o que levou mais tempo a ser limado e a ser consensualizado, porque, por exemplo, havia alguns operadores que não queriam vir trabalhar para Vila Franca, estavam habituados a trabalhar ao pé de casa. E, depois, havia uma questão financeira.
As associações achavam que não tinham condições financeiras para poder suportar por elas os operadores. A ideia era que associações pudessem poupar também nos recursos humanos, porque tendo seis centrais com três ou quatro operadores cada uma é diferente de ter uma central municipal. Nesta transição para a CMOS houve associações que avançaram de imediato e acabaram com a central própria, juntando a central de despacho, por exemplo, à secretaria.
Há outras que estão numa fase de estudo e há outras que ainda estão a ver se continuam com as suas centrais. Há associações, por exemplo, que têm muitos transportes de doentes que não entram aqui na CMOS. Têm que ter alguém na sua estrutura que trate desses aspectos. Por outro, hoje em dia, com as ferramentas informáticas, isto está tudo muito mais facilitado.
Estes cinco anos foram o tempo necessário ou foram um bocadinho mais do que se esperava no início?
Foi um bocadinho mais, mas fruto, eventualmente, de sermos um concelho com seis associações e não é fácil que seis instituições se coloquem todas de acordo em relação a determinadas matérias. Foi o tempo necessário para que as pessoas se sentissem todas confortáveis com a solução. Aquilo que a Câmara nunca quis foi impor fosse o que fosse.
Por isso, em 2023, numa reunião que tivemos, o senhor presidente foi questionado sobre quem é que iria pagar aos operadores da CMOS. Era a última questão que estava em cima da mesa e a Câmara assumiu o pagamento dos operadores. A partir daí começou-se a implementar a primeira fase da organização conjunta, porque a CMOS é a primeira fase da organização conjunta, não é um fim, é um princípio.
Esta centralização das antigas seis centrais numa única CMOS não pode gerar “afunilamentos” e tempos de espera superiores?
Não. Pode acontecer. Mas isso está previsto nos estudos que fizemos. Não é por acaso que temos um número de operadores por turno de acordo com os estudos prévios que fizemos de acordo com as chamadas que os corpos de bombeiros recebiam. Não alterámos nada em relação ao funcionamento dos corpos de bombeiros, que continuam a funcionar exactamente como até aqui. Mas uma das grandes vantagens que tem a CMOS, primeiro é a rentabilização de meios. Com os mesmos meios fazemos mais ocorrências e temos uma resposta mais rápida.
Tentaram prevenir tudo, mas passados dois meses há algumas coisas em que não pensaram no início?
Já alterámos muita coisa, não só no sistema informático. Na primeira semana de funcionamento alterámos radicalmente a informação que tínhamos disponível. E para isso foi fundamental a empresa de software. Depois, por natureza, somos todos avessos à mudança. O que nós fizemos foi trazer cá todos os operadores dos corpos de bombeiros e todos os chefes para verem como é que funciona a CMOS, como é que se define e por que é que se define. Para desmistificar essas questões.
O que também gostava de evidenciar é que, para mim, a CMOS está a superar as expectativas. Funciona muito melhor do que estava à espera. A interligação com os corpos de bombeiros foi muito melhor do que aquilo que estava à espera. O funcionamento com o INEM e com o comando sub-regional superou as expectativas. Outra grande vantagem é antecipar os meios de socorro para que o socorro seja mais rápido.
As pessoas que precisam de socorro não precisam de saber qual é o corpo de bombeiros que está disponível, querem é ter alguém que as possa socorrer. Se me disser: está tudo a funcionar a 100 por cento? Não, ainda temos margem de melhoria e de crescimento.
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